Veritas

Espaço de opinião e comentários sobre política, economia, música, cinema, televisão, literatura etc. Noutras palavras, é igualzinho à maioria dos outros que há por aí!

29 de dezembro de 2007

As boas, as más e o adeus

As “boas” notícias do final de ano

Como se sabe, o comércio teve o melhor natal em pelo menos dez anos. Fora isso, há previsões de crescimento do PIB ainda maior do que o anteriormente previsto, que por seu turno já era bem otimista.

Mas ainda assim, os grandes jornais de São Paulo - a Folha no dia 26, e o Estadão no dia seguinte – preferiram destacar nas suas manchetes principais o aumento do número de mortes nas rodovias, durante o feriado. Notícia importante, sem sombra de dúvida. Mas impossível negar que tal predileção pela desgraça apenas corrobora a lamentação do presidente Luiz Inácio da Silva há alguns meses, a de que a imprensa só vive de más notícias. O que será que a Eliane Cantanhêde, colunista da Folha que mais esbravejou com aquela reclamação do presidente, teria a dizer sobre isso?

Mas ouso dizer que tenho explicação para isso: o tão esperado caos aéreo do natal não ocorreu; logo, fez-se necessário um sucedâneo para manter a agenda negativa. Quem sabe no ano novo não ocorrem mais atrasos nos vôos!

As “más” notícias do início do próximo ano

Uma previsão que é “batata”: janeiro e fevereiro vêem aumentar as estatísticas referentes à inadimplência e à volta de cheques sem fundo. São os “moderadores naturais” da explosão de vendas do final de ano. Se alguma emissora de rádio e TV ou redação de jornal estiver com problemas de pessoal e precisar dar a notícia, basta revirar os arquivos e utilizar o material do mesmo período do ano passado. Acredito que ninguém vai perceber.

Outro triste risco para o início de 2008 é o aumento dos juros. A inflação bate a porta, como ficou comprovado pela expressiva alta do IGP-M, sobretudo os preços no atacado. Resta-nos apenas torcer para que prospere a tese de Paulo Skaf, da FIESP, e que o fim da CPMF permita a redução dos preços no atacado, afastando assim talvez a principal pressão de alta para o consumidor final . Se o amigo leitor acredita em papai Noel…

O adeus a Oscar Peterson

No natal de 2006, o mundo perdeu o mestre James Brown, e no nível doméstico foi sentida a perda de Braguinha.

E neste natal de 2007, mais precisamente em 23 de dezembro, morreu um dos grandes pianistas da história do jazz: o lendário Oscar Peterson.

De carreira longeva e com inúmeros discos lançados, Peterson sempre se destacou principalmente como líder de seus grupos. Porém, é especialmente recomendável o álbum que dividiu com Louis Armstrong pela Verve em 1957, intitulado justamente Louis Armstrong meets Oscar Peterson. Eis a singela homenagem que lhe presto: redigir estas mal digitadas ao som de um dos melhores pianos – acompanhado de uma das melhores vozes – do século XX. Valeu, Oscar!

 

*Originalmente publicado no blog (Quase)Tudo.

criado por acreditoque    17:42 — Arquivado em: Sem categoria

18 de dezembro de 2007

Chama o PROCON!

Somos todos corruptos; a corrupção está no nosso DNA; a corrupção no Brasil é uma coisa cultural: são alguns chavões de que o leitor já deve estar cansado.

Vez ou outra, no entanto, vêem-se alguns acontecimentos que parecem confirmar todo tipo de lugar-comum sobre o assunto.

Recentemente, por conta do clima natalino, a transnacional espanhola Telefônica ofereceu um encontro para os funcionários do PROCON de São Paulo. No encerramento da festa, foram sorteados alguns prêmios para os felizes funcionários do famoso órgão de defesa do consumidor. Dentre os mimos encontravam-se tocadores de MP3 e aparelhos de DVD. Segundo a companhia telefônica, a intenção era melhorar o relacionamento com o respeitado órgão paulista. Ah! Um pequeno detalhe: a Telefônica é a campeã de reclamações no PROCON.

O PROCON da capital paulista, segundo a imprensa, devolveu os prêmios mediante ofício.

É risível a alegação da corporação espanhola, a de que não tinha o menor interesse de “comprar” ninguém e, mais do que isso, estava imbuída apenas da excelente intenção de oferecer um aceno de simpatia a pessoas com quem tem lidado diariamente por conta dos “naturais” problemas a que uma empresa de gigantesco porte está sujeita. Bem, é difícil encontrar um corruptor, quando é o caso, que admita que realmente está dando presentes esperando algo em troca!

Não vi as manifestações dos funcionários do PROCON agraciados com a generosidade da companhia espanhola, mas ouso dizer que não tenho dúvidas que cada um deles garantiria não haver nada demais em receber um "presentinho", ainda mais nessa época de final de ano, sob o já citado clima de festas, até porque não haveria nenhuma relação de causa e efeito nessa história toda que corroborasse um caso clássico, indiscutível, de corrupção. Aliás, há muita gente, inclusive especialistas, que defendem a razoabilidade de tal ponto de vista.

Há dificuldades nesse tipo de assertiva, referentes sobretudo à definição de “presente de pequeno valor”. Em primeiro lugar, para uma empresa como a Telefônica é bem provável que, por exemplo, um carro zero quilômetro poderia ser considerado um “presentinho” de pequeno valor. Em segundo, há o risco de se aplicar aquele exercício lógico chamado de “sorites”: se um bem de, por exemplo, R$30,00 é presente de pequeno valor, um de R$31,00 também o é; se o de R$31,00 é, um de R$32,00 também o será. Daqui a pouco, chegar-se-á à conclusão de que um bem de, digamos, R$100,00 é de pequeno valor e assim por diante.

Um caso desses somente se resolveria se houvesse algo frio e objetivo, no caso uma lei, que determinasse que um “presente” até X reais é de pequeno valor, e um funcionário público recebê-lo não constitui problema nenhum. Em não havendo isso, a definição de pequeno valor será de ordem subjetiva e também será, principalmente, relativa.

Quanto aos funcionários do PROCON, é só de lamentar que tenham achado normal participar dessa patacoada toda. Alguém aí falou no elemento cultural da corrupção?

Mas era só o que faltava, chamar o PROCON para reclamar do… PROCON!

*Publicado originalmente no blog (Quase)Tudo.

criado por acreditoque    14:25 — Arquivado em: Sem categoria

Mais sobre CPMF

O day after da queda da CPMF trouxe situações, notícias e histórias que são boa matéria-prima para quem gosta de perder algum tempo analisando as questões da atualidade.

Alguns jornais, ainda sob indisfarçável clima de celebração, recomendaram a seus leitores que adiassem compras de valores vultosos para janeiro, pois assim escapariam do 0,38 por cento sobre a operação de aquisição do produto.

Ótima dica, sem dúvida! Mas certamente de pouca ressonância entre a maioria dos consumidores brasileiros.

Imagine o leitor que vá comprar um carro no valor de, digamos, 20 mil reais. Se o autor das mal digitadas ainda sabe fazer contas, o feliz adquirente do automóvel pagará 76 reais de CPMF. Vamos e venhamos, ninguém adiará uma compra por causa disso! Seria ótimo que as pessoas soubessem esperar e tivessem esse tipo de preocupação mesmo com pequenas quantias; mas nós não apenas somos compulsivos e imediatistas na hora da compra, como também não costumamos nos preocupar com valores irrisórios quando comparados a montantes bem maiores. Por que alguém adiaria uma compra de 20 mil para economizar parcos 76 reais, quando se vêem cidadãos docilmente pagarem valores extorsivos no cheque especial ou nos juros dos cartões de crédito?

Noticiou-se também que os preços devem cair por conta da enxugada da CPMF que estaria embutida no preço final dos produtos. Será mesmo? Para se acreditar nisso não é necessário apenas ter fé, mas, principalmente, ter memória curta além daquela quantidade que já nos é habitual.

Todos devem lembrar-se de que no governo Collor houve o IPMF, que foi devidamente extinto a seu tempo. Posteriormente, como forma de obter verba para a saúde, o então ministro Adib Jatene empenhou-se na criação da CPMF. O pessoal da FIESP e outras instituições patronais ergueram-se para dizer que o tributo traria aumento de preços. O ministro Jatene, inteligentemente, perguntou por que, então, os preços não caíram quando o então IPMF fora extinto. Até hoje, que se saiba, nenhuma federação ofereceu resposta. Ademais, não se deve negligenciar o risco de que, com um pouco mais de dinheiro na mão das pessoas, os preços venham mesmo é subir, sobretudo porque a economia está razoavelmente aquecida e já se observam, segundo os economistas, algumas pressões inflacionárias aqui e ali.

Mas a pior de todas, sem dúvida, foi a notícia de que a oposição – repita-se, a oposição, segundo os noticiários - pretende abrir canais de negociação com o governo para ressuscitar a Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras, só que dessa vez dentro de um pacote de uma reforma tributária mais ampla.

Será que a ficha dos oposicionistas caiu?

Sem dúvida que a rejeição da prorrogação da CPMF foi um ato de oposição sistemática. Mas houve algo de racional nela também, pois se pretendia, em princípio, tirar um pouco dos recursos utilizáveis nos programas sociais, ponto forte do governo Lula, expondo-o a uma situação difícil na fatia do eleitorado que é seu principal pilar.

Mas 2008 é ano de eleições municipais. Como se sabe, a oposição administra muitas cidades Brasil afora. Os recursos advindos da CPMF respingavam nos serviços públicos municipais, que agora correm o risco de ver sua qualidade ainda mais definhada. Com a atenção voltada às eleições para prefeito, o cidadão vai se voltar contra o mandatário municipal, deixando de lado a eventual responsabilidade federal nos problemas locais. Se os hospitais municipais estiverem em situação ainda pior do que já estão, a culpa vai ser atribuída ao prefeito e não ao governo federal que não repassa verbas.

Imagine, amigo leitor, quantos telefonemas irados de correligionários o senador Arthur Virgílio deve ter recebido nos últimos dias!

*Publicado originalmente no blog (Quase)Tudo.

criado por acreditoque    14:22 — Arquivado em: Sem categoria

14 de dezembro de 2007

Eu preferiria a CPMF

A derrota do Governo Federal na proposta de prorrogação da CPMF é sem dúvida um dos fatos mais notáveis deste final do ano, perdendo em importância somente para o excepcional crescimento do PIB anunciado nesta semana. Os espetaculares índices de aprovação da governança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, confirmados pela pesquisa CNI/IBOPE divulgada nos últimos dias, já viraram “carne de vaca”, não sendo, portanto, merecedores de maior destaque.

Foram particularmente interessantes as opiniões pescadas aqui e ali, sobretudo aquelas vindas de pessoas comuns, postadas geralmente em fóruns ou outros espaços destinados aos comentários de leitores na Internet, tanto nos dias em que antecederam quanto já nas primeiras horas após a – por que não dizer – sessão histórica do Senado Federal que rejeitou a Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras.

O pessoal contrário à cobrança do tributo empenhou-se em recordar que o PT foi outrora ferrenho opositor da CPMF, e que o próprio presidente Lula não o negava. Faltou, todavia, lembrar que a recíproca é verdadeira: os senadores que mais atacavam a Contribuição foram os mesmos que lhe eram favoráveis noutros tempos, numa época, aliás, em que o governo de plantão não tinha nem de longe o comprometimento social do atual.

Foi deveras engraçado ver, após a votação, alguns internautas parabenizarem os nobres senadores pela derrota que impingiam ao Governo. Só se pode atribuir isso à famigerada “cordialidade brasileira”. Uma semana antes, viam-se, nos mesmos espaços, os leitores esbravejarem contra o corporativismo e a covardia de nossa Câmara Alta por ter, pela segunda vez em pouquíssimo tempo, livrado a cara do senador Renan Calheiros. Agora, num passe de mágica, os ocupantes do Senado Federal são promovidos à categoria de heróis! Volubilidade…

Ao criticarem toda a carga tributária, alguns freqüentadores dos sítios noticiosos aproveitaram para repudiar os programas sociais, sempre sugerindo que a sacrificada classe média carrega o Brasil nas costas, sustentando uma horda de “vagabundos” com programas como o Bolsa-Família. Mas o egresso da classe média que realmente pensa assim deveria ser o primeiro a defender tributos como a CPMF. Em primeiro lugar porque é praticamente impossível sonegá-la, o que deveria ser um alento para aqueles que sabem que realmente são obrigados a pagar impostos altos por culpa daqueles que, não obstante a maior renda, conseguem driblar a Receita; em segundo, porque ao contrário de outros impostos, que de certo modo usam um pouco do princípio da progressividade, a CPMF também é cobrada - e na mesma proporção - dos muito pobres, haja vista a submissão do povo brasileiro ao sistema bancário quase em sua totalidade. Ou seja, nesse caso não dá para os chorões da classe média dizerem que "sustentam" os muitos pobres, que não pagam impostos .

Resta agora esperar que a FIESP faça valer aquilo que tanto apregoou nos últimos tempos: sem a CPMF, que a indústria de São Paulo comece a contratar desvairadamente, que de quebra melhore os salários de seus operosos funcionários e que também reduza um pouco de seus preços no atacado (os que têm contratos regidos pelo IGP-M agradecem).

Por fim, o autor destas mal digitadas também gostaria de congratular-se, não com os excelentíssimos senadores da República, como fizeram os freqüentadores dos sites dos jornais de São Paulo, mas, sim, com o jornalista Paulo Henrique Amorim, que asseverou haver duas linhas a se seguir no Brasil: ou bem se é a favor da distribuição de renda, ou se é favorável à redução ou extinção de impostos; não há meio-termo.

Este blog é, humildemente, a favor da distribuição de renda. E a CPMF, infelizmente extinta, era o tributo que melhor servia a esse objetivo.

* Originalmente publicado no blog (Quase)Tudo

criado por acreditoque    13:39 — Arquivado em: Sem categoria

12 de dezembro de 2007

Novo Endereço

A partir de 12.12.2007, os posts deste espaço também serão publicados no blog (Quase)Tudo.

Grato pela sua visita.

criado por acreditoque    9:17 — Arquivado em: Sem categoria

8 de dezembro de 2007

Educação, educação, educação. Em São Paulo?

A anunciada (vergonhosa) posição internacional do Brasil no quesito educação básica certamente que não chega a causar grande espanto: essa nunca foi uma das nossas prioridades. Está certo que ela é tema de debates e de discursos de políticos, mas medidas práticas são raras e, em alguns casos, quando as há, elas conseguem ser catastróficas a ponto de parecer preferível que elas não existissem.

O fator mais relevante, porém, foram os resultados obtidos no estado de São Paulo, que puxaram para baixo a média nacional. É estarrecedor que o maior e mais rico estado da Federação tenha ficado atrás de estados menores e mais pobres.

É estarrecedor, porém não é surpreendente.

Desde fins dos anos 1990 vigora no estado a chamada “progressão continuada” ou “aprovação automática” ou outro pomposo e bonito nome do gênero. Tal medida, a rigor, não é errada, tendo em vista que o grande objetivo é que todos aprendam adequadamente e, em conseqüência, sejam promovidos para as outras etapas do processo educacional. O erro, provavelmente, está na condução do processo, pois simplesmente se aprovam os alunos sem que eles, muitas vezes, aprendam sequer o mínimo para o estágio em que se encontram. É inconcebível que um garoto seja alçado, por exemplo, da sexta para a sétima série do ensino fundamental apenas porque não se pode retê-lo mais um ano naquele mesmo grupo, mas que não haja um trabalho sério que o “obrigue” a aprender ou algum acompanhamento de reforço para vencer suas dificuldades. Repita-se, um “trabalho sério”, pois, se é que há algum, tudo indica que não prima pela seriedade.

É curioso que figuras importantes da sociedade civil, a imprensa e demais formadores de opinião encham tanto a boca para falar da importância da educação e que, ao mesmo tempo, sejam em sua maioria tão simpáticos aos governadores tucanos, em última análise responsáveis por essa situação em São Paulo: o finado Mário Covas é quase tratado como um semideus; Alckmin falava num tal choque de gestão sem provocar risos nos seus ouvintes; Serra, por fim, aparece até como uma alternativa – talvez a mais viável da oposição no momento – para a sucessão de 2010. E dizem que a educação é prioridade…

A importância da educação para o mundo do trabalho é de tal monta que, talvez, seja maior do que a devida. O sociólogo italiano Domenico de Masi, grande defensor da necessidade de redução radical da jornada de trabalho como forma de solução à crise estrutural do desemprego, quando contestado por aqueles que afirmam que as pessoas não saberiam o que fazer com o tempo que lhes restaria, responde que o problema passa pela educação: com efeito, ela é voltada à formação para o mundo do trabalho, mas nada nos ensina quanto ao uso de nosso tempo livre. Dada essa – até indesejável - vocação do processo educacional, é estranha a sua calamitosa situação justamente no estado que é grande exemplo nacional de pujança econômica: “locomotiva”, terra de oportunidades, terra do trabalho, responsável por uma fatia do PIB maior do que o de muitos países em desenvolvimento.

A educação básica, sobretudo a pública, vai realmente muito mal, evidentemente que não apenas no estado de São Paulo, mas em todo o Brasil. É necessária muita união para solucionar o problema. É pena que, numa situação dessas, alguns pais, os editores da revista Época e o Ali Kamel, diretor do jornalismo da Globo, ainda encontrem tempo para preocupar-se com supostos “desvios” ideológicos de livros didáticos.

criado por acreditoque    17:08 — Arquivado em: Sem categoria

4 de dezembro de 2007

Pelo SÍ pelo NO

Em disputa extremamente acirrada, a proposta de reforma constitucional na Venezuela não foi referendada pelos eleitores do país nesse primeiro domingo de dezembro. Vê-se, em decorrência do resultado, não apenas a compreensível celebração por parte da oposição venezuelana, como também a rejubilação da imprensa internacional, de alguns porta-vozes de governos mundo afora e do “deus-mercado” que sempre dita os humores a partir de Wall Street. Todos vibram com a primeira derrota de Chávez, um homem que, ao contrário da maioria dos mandatários do planeta, gosta de ouvir o ecoar da população que governa. Era de se esperar que uma hora dessas ele acabasse perdendo uma…

A derrota do “sim” vem sendo reduzida a um mero rechaço de um terceiro mandato para Chávez, além da negativa da possibilidade de reeleição permanente para o presidente da República. Com efeito, todos “os que amam a democracia” parecem dar muita importância ao que se chama de alternância no poder. Está certo que nem tanto assim! No caso de Margareth Tatcher, por exemplo, parece que não houve muita celeuma nos seus longos anos à frente da chefia do governo britânico; no Brasil, não houve qualquer sublevação quando FHC mudou a constituição (sem referendo, nem plebiscito nem nada) para obter a possibilidade de um segundo mandato para si próprio, que havia sido eleito sob a égide de um sistema que não permitia a recondução; a imprensa paulista não parece se incomodar com os quase 15 anos de PSDB no governo de São Paulo; e as dezenas de anos do PRI no México nunca ensejaram motivo de grande mal-estar. As situações talvez não justifiquem comparações. Mas basta lembrar que, se fosse o caso, qualquer presidente venezuelano, de acordo com a proposta derrotada no domingo, teria apenas o “direito de concorrer” à reeleição; poderia perder a disputa, obviamente! É bem provável que este seria um argumento semelhante aos que entendem como perfeitamente normal que um partido se perpetue por décadas no poder. A diferença, dirão eles, é que se devem mudar os nomes. Em conclusão, vê-se nisso que tudo depende da conveniência ou de “formas” de democracia que sejam aceitas – ou preferidas - num dado contexto.

Mas o mais importante a ser dito acerca da proposta de reforma da constituição venezuelana é que ela, ao contrário do que parte da imprensa tentou fazer a opinião pública crer, ia muito além de mudanças quanto ao sistema político-eleitoral. Ela também instituía conselhos comunais, que discutiriam orçamentos e coisas do gênero, sendo, pois, elementos de forte participação popular; havia também a proposta de redução da jornada de trabalho de oito para seis horas diárias; apresentava a possibilidade de outras formas de propriedade além da privada; era contrária à autonomia do banco central daquele país. Resta saber se as pessoas realmente votaram conscientes de todas as mudanças sugeridas e se elas foram devidamente informadas acerca das dezenas de artigos que mudariam a constituição daquele país. O que será que levou a maioria dos venezuelanos a votar contra a redução de jornada de trabalho, por exemplo?

Na segunda-feira 3 de dezembro, um consultor financeiro de nome Alberto Bernal disse, em Nova Iorque, que o “tal de mercado” tinha ficado muito satisfeito com o resultado do referendo na Venezuela, pois, segundo ele, “o mercado sempre prefere a democracia”. Mais uma vez cabe perguntar qual “democracia”. Parece que o “tal mercado” não vogava tanta importância assim à democracia nos tempos de Pinochet no Chile; ele sequer parece dar importância, hoje, às aventuras de Musharraf no Paquistão; tampouco se demonstrou assombrado com a vitória dos aliados de Putin, homem que é suspeito até de assassinato, nas eleições parlamentares da Rússia, as quais estão sendo acusadas de pouca lisura por parte dos observadores internacionais. E às favas com as meias-palavras: democracia para o “Sr. Mercado” é comprar, vender, ter lucro, fazer negócios e negociatas. Só isso.

O governo norte-americano não se omitiu de opinar sobre os resultados do escrutínio de domingo, vendo na derrota de Chávez um enfraquecimento do líder venezuelano, o que traria mais equilíbrio na América do Sul. Seria uma boa análise, não fosse pelo clima de festejo com que tal opinião foi divulgada. Os estadunidenses deveriam ser um pouco mais diplomáticos nessa hora. Pelo menos na mesma medida em que o são no já citado – e já tratado neste blog – "caso paquistanês".

O "sim" e o "não" nada mais foram do que a pura expressão de uma visão maniqueísta em relação à polêmica figura do presidente Hugo Chávez. O que estava em jogo era a constituição venezuelana. Valeria a pena ter prestado mais atenção ao conteúdo das mudanças que eram propostas. Parece que isso não foi feito.

criado por acreditoque    0:19 — Arquivado em: Sem categoria

1 de dezembro de 2007

O adjetivo certo é TUCANO

Finalmente o Procurador-Geral da República ofereceu denúncia contra os envolvidos no escândalo que ficou conhecido como o “mensalão mineiro”. Entre os implicados encontram-se o senador Eduardo Azeredo (PSDB) e o agora ex-ministro Walfrido dos Mares Guia (PTB).

Como na velha canção de Lupicínio Rodrigues, “há gente com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração”: eles devem ser os únicos que não se revoltam com a denominação desse escândalo, a de “mensalão mineiro” em vez de “mensalão tucano” ou “mensalão do PSDB” ou, o que seria mais acertado, “valerioduto tucano” ou “caixa dois do PSDB”, por exemplo.

Não chega a surpreender, mas é digna de nota a desfaçatez da imprensa. O Estado de São Paulo, para citar um exemplo, botou no seu sítio eletrônico uma didática apresentação de como funcionava tal esquema. Logo no primeiro passo, denomina-o, como já sabemos, de “mensalão mineiro”, e apresenta-o como embrião do “mensalão do PT”. A história repetiu-se noutros órgãos de comunicação, não havendo consenso e apenas quando ao fato de chamá-lo de “mensalão petista” ou “do PT”. Um é “mineiro”, o outro é “do PT”: isso é que é falta de paralelismo!

Parece que o Partido da Social Democracia Brasileira, mais do que nunca, vem insistindo na estratégia de afirmar que quaisquer boas políticas públicas do atual governo tiveram início nos anos em que os tucanos lideravam a coalizão conservadora que mandava no Brasil. O partido de Serra, Aécio e FHC deveria se orgulhar também de ter sido o primeiro a dar oportunidade ao talento do “publicitário” Marcos Valério!

A imprensa encontra nesse caso também alguns bons motivos para se alegrar, afinal, ao falar do caso, ainda que se valendo de verborragia enganosa, pode tentar passar uma impressão de imparcialidade. No filme “Intriga Internacional”, de Alfred Hitchcock, a agente secreta interpretada por Eva-Marie Saint dispara um tiro com bala de festim na personagem de Cary Grant, com o intuito de enganar o espião vivido por James Mason, por quem ela finge estar apaixonada; a personagem de Martin Landau, aliado de Mason, descobre a farsa e lembra o chefe que esse é um truque antigo, qual seja, fingir que se está contra aquele a quem, de fato, se é aliado. É assim que age a mídia brasileira: falando do caso “mineiro”, ainda mais estando ele relacionado a figuras que são, de algum modo, afastadas dos principais nomes do núcleo tucano, finge que não perdoa ninguém, simula um certo compromisso com a verdade “doa a quem doer” etc. etc. etc. Para completar essa farsa, nada melhor do que a afirmação do senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, no programa Roda Viva de 26 de novembro, de que estava satisfeito com o comportamento da mídia no Brasil. Ora, não diga, senador!

O envolvimento do ex-ministro Mares Guia nesse imbróglio traz um aspecto interessante para o cenário político nacional. Trata-se, por assim dizer, de uma "ironia do destino": o governo Lula vem sendo acusado, de um lado, de aparelhar muito a máquina nos interesses do PT; de outro, alguns que ainda admitem que possa haver algo de bom no governo, atribuem-no à atuação de “nomes” que não são necessariamente ligados ao Partido dos Trabalhadores. Posto isto, é curioso que um ministro de Lula (como gosta de dizer a grande imprensa), filiado ao PTB (portanto um não-petista), perca o cargo por supostos delitos cometidos nos tempos em que era aliado do PSDB! Será possível que a (des)graça dessa situação tenha conseguido passar despercebida de todos os analistas políticos de nosso país?

criado por acreditoque    13:46 — Arquivado em: Sem categoria

28 de novembro de 2007

Do you speak Portuguese?

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em encontro do PSDB nos últimos dias, fez críticas a uma suposta falta de domínio da língua portuguesa por parte do presidente Lula.

À exceção de Mino Carta, no seu invejável blog, não apareceu ninguém para dizer que, em verdade, Lula nos últimos tempos tem se manifestado com um português acima do aceitável, pelo menos, dentro de um padrão tido como razoável para qualquer pessoa que realmente queira se comunicar na nossa língua.

É bem verdade, no entanto, que Luiz Inácio Lula da Silva, nos seus tempos de sindicalista ou nos primeiros anos de vida política propriamente dita, cometia alguns erros perceptíveis até por tolos que sentem gigantescas dificuldades com a “inculta e bela”, como, por exemplo, o autor destas bobagens.

Lula sempre foi vítimas de preconceitos por isso. “Preconceitos” bem na acepção da palavra, diga-se. Quando da corrida presidencial de 1989, por exemplo, o legendário Paulo Francis, na sua famosa coluna na Ilustrada, tripudiou com o fato de o então candidato à presidência pelo PT ter falado que muita gente havia “enricado” no Brasil não sei lá por quê. É difícil lembrar-se dos detalhes, mas o polêmico jornalista, sem contestar os fundamentos da afirmação, dizia apenas que muita gente poderia até ter “enriquecido” por causa daquele não-sei-o-quê, jamais “enricado”! Dias depois, no Painel do Leitor, já se liam cartas em que se asseverava que o verbo “enricar” estava certo e se encontrava abonado no velho e bom dicionário Aurélio. E está mesmo, pode conferir!

Há pouco tempo, num ótimo texto de Carta Maior, o jornalista Bernardo Kucinski conta que a colunista Sônia Racy ficara chocada porque o presidente Lula havia se referido ao Uruguai como um irmão “mais pequeno”. Não, a Sônia não se preocupou com a qualificação de “pequeno” ao nosso vizinho, mas sim a um suposto erro vernacular: certamente ela queria que Lula tivesse se referido a um parceiro “menor”. Kucinski não economizou nas palavras e classificou a implicância da jornalista como ignorância, pois o termo “mais pequeno” é correto.

De todo modo é sempre bom saber que FHC - assim como o senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, que disse, no Roda Viva, concordar com o ex-presidente – é tão cioso da correção no uso da língua por parte dos homens públicos. Por isso, é de se supor que o “príncipe dos sociólogos” deve ter ficado muito triste quando, ao assistir à propaganda eleitoral para o governo de São Paulo, ouviu o então candidato José Serra dizer que não conhecia ninguém “melhor” qualificado que Guilherme Afif Domingos para ocupar uma cadeira no Senado. Estava errado: talvez Serra não conhecesse ninguém “mais bem” qualificado para aquela função.

criado por acreditoque    3:06 — Arquivado em: Sem categoria

24 de novembro de 2007

Ouvi de TERCEIROS

A polêmica de um terceiro mandato para o presidente Lula pode-se dizer que já é antiga. Ouve-se falar disso desde a corrida eleitoral de 2006. Não nasceu da boca do presidente ou dos seus correligionários, mas sim daquele grupo coeso formado de um lado por alguns políticos de oposição, e de outro, por setores da mídia.

Alguns vêem nisso uma espécie de conspiração: se os índices de popularidade do presidente persistirem, a tentação de querer mudar a Constituição para um eventual terceiro mandato consecutivo será muito grande, e se isso ocorrer, os opositores de Lula poderão dizer que estavam certos, que o presidente brasileiro é a versão local de Chávez, ou que ele é um protoditador, um oportunista etc.

É bom que ninguém se esqueça que esse assunto só tem vez no Brasil porque há um precedente importantíssimo: se Lula um dia vier a acenar com tal possibilidade, não estará fazendo nada de diferente do que FHC fez em 1997. No fundo, os que expressam tal possibilidade são os mesmos que acreditam que o governo Lula é uma mera continuação do de seu antecessor, além de um imitador de seus fundamentos. É claro que não podem admiti-lo, mas ao temerem o terceiro mandato de Lula, reconhecem o casuísmo de coloração golpista da reeleição do ex-presidente. E se o atual presidente, para consegui-lo, vier a “comprar” um ou outro deputado, maravilha: o ato se mostrará completo.

Mas, salvo engano, estamos em 2007. Faltam, portanto, três anos para a eleição do novo presidente da República. É preciso ter muita esperança nos rumos do governo para acreditar que Luiz Inácio Lula da Silva chegará tão forte em 2010. O mundo da política é muito dinâmico: Lula elegeu-se de forma esmagadora em 2006, mas um ano antes, no momento nevrálgico da crise do mensalão, dizia-se que ele iria “sangrar até morrer”, e mesmo um tempo depois, com o pior da crise já superado, houve senador do bloco de oposição que falou que, assim mesmo, “o presidente levaria uma surra”, nas urnas, claro! (A propósito, é muito interessante – e triste - que o discurso oposicionista seja tão povoado de imagens de violência: “surra”, “sangrar até morrer”…). Tal situação deixa este blog numa encruzilhada paradoxal: somos totalmente contrários à tese do terceiro mandato e consideramos que o assunto foi arte da imprensa sem pauta e da oposição sem projeto; mas, em contrapartida, torcemos para que as condições que permitem que esse tópico seja aventado continuem vigorando no Brasil. Afinal, alguém da oposição estaria se importando se Lula realmente quisesse um terceiro mandato, mas aparecesse envolto numa crise que o estivesse “sangrando”?

Parece, no entanto, que já houve deputado da base governista pondo lenha na fogueira do "Lula III". Pode ser uma mera estratégia de quem queira deixar o assunto em pauta, tendo em vista que ele, conforme exposto acima, pode fazer parte de um turbilhão que confirma a razoabilidade do governo. Por outro lado, pode ser alguém que se encantou com tal possibilidade e acabou “mordendo a isca”, deixando-se levar por tema tão despropositado. A segunda hipótese, se confirmada, apenas provará que o arsenal de “alopragem” do PT e da base aliada ainda não foi de todo utilizado.

criado por acreditoque    0:39 — Arquivado em: Sem categoria
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